As leituras obrigatórias da FUVEST 2019

Veja o porquê esses livros são tão importantes publicado 9 de agosto de 2018.

Todo estudante sabe a importância e as dificuldades de prestar a FUVEST, vestibular da Universidade de São Paulo. O peso das disciplinas varia dependendo da área, ainda assim, uma que é sempre bom mandar bem é o português e a redação. independente da área que você decida seguir é importante saber escrever e interpretar textos bem.

A prova de português inclui questões sobre leituras obrigatórias e essa lista é divulgada anualmente. Sabemos que muitas vezes é difícil ler aqueles clássicos antigos, ainda mais com tantas matérias para estudar e séries na Netflix para ver (rs), não é mesmo? Mas nós queremos te ajudar a entender a importância dessas obras, por isso abaixo faremos uma rápida sinopse e contaremos o porquê esses livros merecem destaque.

 

Iracema – José de Alencar

Esta obra conta a história de amor entre Iracema, índia tabajara e filha do pajé, com Martim, português aliado aos pitiguaras – inimigos dos tabajaras –  que está perdido em terras inimigas. A história faz uma união da cultura do colonizador europeu com os valores indígenas, o que é visto por muitos especialistas como um mito de fundação da identidade brasileira.

Esta é uma das obras mais famosas brasileiras do Romantismo e se insere em uma linha conhecida como Indianismo, em que há uma valorização das tradições locais e o uso de vocábulos indígenas e descrição de costumes das tribos. O uso de metáforas e mitologias para explicar o mundo também traz grande valor a essa obra, ajudando o leitor a estimular a interpretação de texto. Além disso, as experiências do autor José de Alencar pelo sertão brasileiro enriquecem a trama, misturando ficção e documento e tornando a obra também um apoio para o aprendizado da história brasileira.

 

Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

Sabemos que ler Machado de Assis não é fácil, mas esta obra rompeu com os panoramas da literatura nacional ao ter como narrador um defunto! Para um livro do século XIX, as escolhas de narrativa do autor fizeram com que se tornasse uma das obras mais ousadas de todos os tempos. Sim, é uma leitura desafiadora, ainda assim, deve receber do leitor a devida atenção pela revolução que representa em si.

O livro começa coma  dedicatória: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas”. Como não ficar intrigado com o que vem pela frente? O narrador conta então, em primeira pessoa a história de sua vida e, aos poucos, vai questionando, criticando e ironizando a elite da época e seus privilégios, as crenças e os preconceitos que envolviam a sociedade e as produções culturais do período. Com esta obra, Machado de Assim desafiou o sistema, a religião e a ciência. Praticamente, uma revolução escrita.

 

A Relíquia – Eça de Queirós

Obra pertencente ao movimento Realista, o que o opõe bastante ao primeiro livro dessa lista – Iracema – já que o movimento surgiu como um contraponto ao Romantismo. Priorizando o que se é ele vai contra as idealizações dos sentimentos. Porém o autor foge da fórmula do movimento ao escrever em primeira pessoa, sendo que o padrão no Realismo era escrever em terceira pessoa.

Assim como a obra anterior, também se trata de um livro de memórias do personagem principal e narrador dos fatos. A trama se desenvolve de forma progressiva, contando desde sua infância e dramas com o pai, sua adolescência e juventude na universidade de Coimbra, até chegar a viagem à Terra Santa, onde se desenvolve a maior parte da trama. E não só nisso este livro se parece com Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas por ambos pertencerem ao Realismo, este também conta com várias críticas, ironias e ceticismos em relação a sociedade da época.

 

O Cortiço – Aluísio Azevedo

Por mais que se trate de um livro lançado em 1890, sua narrativa é tão atual que arriscamos dizer que pode ser uma das obras mais fáceis de ler desta lista. Ao contar o dia a dia dos moradores de um cortiço vemos bem retratado realidades próximas as de comunidades carentes contemporâneas, ao mesmo tempo observamos o retrato do dono do cortiço e estabelece-se assim a representação da luta de classes e da relação entre explorador e explorado. O romance conta sua história tendo como base teses do seu movimento, o Naturalista, onde defende-se que o comportamento dos personagens é justificado por seu meio ambiente, meio histórico e raça.

A obra narra a ida de João Romão rumo a capital em busca de enriquecimento. Ele vira dono do cortiço, da taverna, da pedreira e utiliza do abuso da mão de obra de seus funcionários e até de roubo para atingir seus objetivos. Quando aparece na região Miranda, um comerciante bem estabelecido, e se desenvolve uma disputa entre eles por um pedaço de terra; João Romão passa a mover mundos e fundos para ficar mais rico que seu oponente. Em paralelo vemos se desenvolver as histórias dos moradores do cortiço.

 

Vidas Secas – Graciliano Ramos

Um dos livros mais queridos das listas de vestibulares, sem sombra de dúvida. Mas com razão, quem nunca ouviu falar da cadela Baleia? Pertencente a segunda fase modernista, o autor utiliza de um estilo seco, com economia de adjetivos, para narrar a história de uma família de retirantes obrigados a migrar de tempos em tempos em busca de uma vida menos sofrida. A forma de escrever parece transformar em palavras a vivência dos personagens, dos ambientes áridos aos efeitos dos eventos por que passam.

Sendo um grande expoente do Regionalismo, este livro é direto em seu retrato da vida sofrida dos retirantes e como suas trajetórias os desumanizam. São tão desumanizados ao ponto dos filhos de Sinha Vitória e Fabiano não terem nomes na trama. O uso da terceira pessoa entra também para reforçar esse ponto, já que os personagens têm pouquíssima articulação verbal. A história não segue uma linha cronológica, mas psicológica, para destacar a exclusão dos personagens em relação à sociedade e aproximar o leitor das angústias vividas pelos personagens.

 

Minha Vida de Menina – Helena Morley

Não tão conhecido como as obras anteriores, esse diário conta as aventuras de uma menina entre os 13 e 15 anos no fim do século XIX. Bom saber que Helena Morley era o pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant. Este clássico, quase desconhecido do público em geral, foi aclamado à época por grandes nomes como Carlos Drummond de Andrade. Um livro fácil de ler, sem um linguajar muito rebuscado e com uma narrativa divertida.

O livro foi escrito pouco tempo depois da abolição da escravatura e da proclamação da República, ótima oportunidade para vivenciar a realidade da sociedade na época e absorver um pouco de história do Brasil do ponto de vista de uma adolescente. Além disso, naquele período a literatura vivenciava o Parnasianismo, onde presava-se por uma escrita erudita, o livro foi receber seu devido destaque tempos depois por fugir disso e conter uma escrita mais livre.

 

Claro Enigma – Carlos Drummond de Andrade

Talvez possa assustar um livro com 41 poesias escritas no final da década de 1940, início de 1950. Porém é importante entender o contexto histórico em que foi escrito para ficar mais fácil absorver a obra. O mundo vivia sob a ameaça da Guerra Fria e da bomba atômica, o que explica a postura introspectiva e melancólica do autor nesta obra.

Drummond trabalha muito com a condição humana nesta obra, formulando perguntas com seu trabalho sobre a situação do mundo, a postura da humanidade, as crenças da época; ainda assim observa-se ao fundo sempre uma descrença no homem, na vida e um desencanto de forma geral. São poemas que trazem um tom filosófico sobre a realidade vivenciada na época.

 

Sagarana – João Guimarães Rosa

Primeiro livro de Guimarães Rosa publicado, essa obra reúne o clássico e o contemporâneo. O autor associa de maneira única a mitologia grega com as mitologias afro e indígenas. Esta é uma ótima porta de entrada para o primeiro contato com as obras dele. Tendo nove contos, a obra anda entre vários tipos de narrativa, desde fábulas medievais até a literatura moderna.

Por ser conhecido por seus neologismos é recomendado que o estudante leia com muita atenção e, se possível, com um dicionário ao lado para consultar sempre que aparecer uma dúvida. Guimarães trabalha com o regionalismo, a vida no sertão, mas não de uma maneira crítica como a maioria de seus contemporâneos. Ele mostra, sim, os problemas da vida do sertanejo, porém com  um pé na mitologia clássica. Um dos contos é o conhecido “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, que já deu origem a dois filmes, fica a dica 😉 .

 

Mayombe – Pepetela

Lançado em 1980, essa é a obra mais recente da lista e a trama baseia-se na participação direta do próprio autor na guerra de independência da Angola. A história acompanha as ações do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) dentro da floresta de Mayombe e foi escrito entre 1969 e 1971, período de pausa da guerra.

Há divergências entre críticos da obra se ela se trata ou não de um relato documental, independente disso, é interessante observar como a trama tem um narrador onisciente que vez ou outra passa a palavra para alguns personagens da história. A floresta se torna um personagem dentro do enredo, levando os guerrilheiros que nela estão se questionarem sobre seus papéis naquela situação e sua condição como angolano, tendo de entender e desconstruir o tribalismo que impedia que os grupos se unissem contra os portugueses. Há uma grande reflexão sobre a sociedade angolana e pode ser interessante observar as similaridades e diferenças existentes entre esse povo, também colonizado por portugueses, e nós brasileiros.

Por fim, essa obra que trabalha com lutas entre tribos e o colonialismo português pode ser comparada, de certa forma, ao primeiro de nossa lista: Iracema, de José de Alencar.

 

 

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